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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A PERCEPÇÃO DA VERDADE


A fome. A estratégia que dá certo, mais do que qualquer tortura. Foi assim também com os nazistas, que aniquilaram a identidade dos judeus nos campos de concentração. As pessoas ficavam concentradas, tinham um destino comum, pois ali era o centro da fome. Os torturados comiam uma metade de pão velho e duro por dia, parecia feito com serragem, dado pelos torturadores, e dividiam-no para comer aos poucos. O centro dos pensamentos de cada judeu era a fome. Muitos se suicidaram. A tortura de não ter o que comer virava obsessão, e havia uma tênue esperança de que no dia seguinte poderiam comer alguma coisa, e assim aguentavam mais um dia, e outro.

Foi isso o que li na Piauí de setembro, parte de um diário de guerra de Liwia Jaffe, que agora, aos 85 anos, com a ajuda da filha, Noemi Jaffe, vai publicar sua história: O que os cegos estão sonhando?, em outubro. É emocionante e real, não como o monte de livros e filmes de ação e violência que aparecem a rodo por aí, e quando acabam, são imediatamente esquecidos. A história de terror que ela vive é tão pungente e humana que pensamos: isso não pode acontecer nunca mais, nunca mais. Mas a imagem que logo me chega é a da fome na África.
Os judeus no passado, os africanos no presente.
Em condições sub-humanas, milhões de africanos partem em êxodos pelo deserto, morrem como formigas, fugindo do fundamentalismo, das guerras, do terrorismo, da perseguição política, étnica ou religiosa.

Quando se descobre, pensando, uma verdade com a qual se depara, é como se tudo ao redor parasse no tempo e no espaço. Tem-se a percepção de uma realidade, é um instante de compreensão absoluta em que nem as palavras são necessárias: o estado mental é de uma precisão impactante.
A percepção de alguma coisa faz com que algo por dentro mude, como se as células de agora em diante fossem se comportar de maneira diferente. A percepção é física, não só mental: o corpo todo fica alerta, por instantes.
Sentir fome é diferente de viver com fome. Não se precisa passar fome para se saber como é. Por isso, uma história bem contada ou um livro bem escrito fazem com que se tenha a percepção de um momento. As palavras podem levar as pessoas a várias experiências, mas só quando existe uma verdade absoluta na história o leitor é abençoado com uma percepção da verdade. Ela o muda.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A NÉVOA, O FACEBOOK, A VAIDADE

A vista da varanda some, fica outra: a névoa chegou. Está esbranquiçada, translúcida , misteriosa. Esfria. Acostumada ao sol inclemente do Rio e ao brilho das cores, ver a paisagem encoberta é sentir um maravilhamento, um espanto. A natureza faz sua mudança silenciosamente.  Uma fumaça espessa como num incêndio vai enchendo os espaços, instalando sua presença.
Hoje ia vender os meus biscoitos, mas estava frio de 11°C, a cidade branca. Quem iria comprar biscoitos num dia assim? Mas a causa primeira da desistência foi o post que recebi de um fotógrafo no Facebook: a fome, a miséria absoluta, pessoas morando no lixo. Desanimei.
Passamos pelo terror no país, a corrupção vai levando de rodo a classe política toda, como se os políticos estivessem apenas competindo entre si. País e povo não existem. Brincam com nosso dinheiro numa roleta russa para ver quem é o mais esperto, o da vez. Estamos assustados, pela rede há uma reclamação geral, discussões sobre o que vai acontecer. Até onde vamos esperar para tomar uma atitude. O que falta? A própria eleição pode ser corrompida, em quem votar? O poder está conosco, mas nosso voto será respeitado?
Descobri amigos interessantes e solidários na rede social. 
Há os que desafiam, são atuantes, engajados na luta contra o roubo declarado, a justiça inexistente. Têm um discurso franco, direto, sem texto arranjado ou cartilhas decoradas, com palavras que vão direto ao coração das pessoas. 
Há amigos virtuais que teria orgulho de ser amiga de verdade. 
Há pessoas simples, como um motorista de ônibus que é poeta, escreve bem.
Há o gênio do Face, proficiente na escrita, na edição, no piano, na música, na psicologia ou em qualquer assunto, pois é uma enciclopédia. Um meu querido.
Há os fotógrafos que ganharam uma visibilidade inquestionável. Enquanto um mostra a fome e rostos desesperados, outro nos apresenta fotógrafos e pensadores famosos em textos elegantes. 
Há os índios do Pantanal e os da Amazônia, que revelam como anda o país - esse mundão de Deus - até onde se alastra a devassidão por todos os cantos, becos, vastidões.
Há as amigas do colégio e do passado que voltei a rever, o que me dá prazer e alegria. 
Há outros que conheço pouco, e se dirigem mais a seus pares.
Há alguns com quem tenho mais afinidade política e intelectual, trocamos posts numa transferência necessária, como se passássemos informações dos bastidores, segredos. Estes são imprescindíveis.
E tantos mais.
Mas está frio. O coração aperta nestes dias fechados e sombrios.
Sou só.
Somos milhares que se correspondem e conversam. Mas estamos ligados por um fio, e não por laços. O que aprendi aqui em Petrópolis foi mais do que viver na solidão. Ultrapassei os meus limites, aprendi a me fazer companhia. Vendo os biscoitos que faço na rua, nos shoppings, em lojas em que os vendedores me olham como se eu fosse uma favelada. Tenho uma vergonha insana, mas ela me empurra para a frente: quero publicar meu livro e viver honestamente. Chego em casa, a bolsa ainda cheia de biscoitos como se tivesse lutado numa guerra. Talvez porque eles sejam uma futilidade, ou porque simples demais para minha grande vaidade.
Assim me vejo. Comparo-me com as fotos do Marcello Scotti sobre a fome, as crianças raquíticas e sinto vergonha da arrogância.
Minha batalha pessoal. Vou, chego, choro, me abasteço de realidade. 
O Facebook ajuda. O sol também.
Tenho que lidar com a humilhação de não ter dinheiro, como se não tê-lo fosse um defeito. E é. Mas isso passa. 


Viviendo en los vertederos ... Living in the dump sites.


Hay días en los que me cabreo, mucho ... conmigo mismo y con gran parte de la humanidad, por lo miserables, inmisericordes, hipócritas y egoistas que somos con nuestros congéneres que viven vidas que no podrían ser más miserables, más terribles y a merced de todo lo malo que pueda sucederle a un ser humano. 
Por eso es cuando gente que siendo pagada por nosotros puede arrogarse el derecho a insultarnos -a TODOS- cuando manda a "qué se jodan (los parados)" y salir impune y seguir viviendo de nuestro dinero, o gente que lidera grandes instituciones ONG y administran los dineros de un modo más que reprochable, por no decir falto de ética y moral, o cuando vemos que la desinformación acerca de la miseria, de los más afectados de la Tierra, de los niños soldado, o niños trabajando en condiciones inhumanas o siendo prostituidos o todas las lacras que ya conocéis, ... cuando todo esto se nos viene encima ... lo menos que podemos sentir es estar MUY cabreados con nosotros mismos, al menos por permitirlo.

En el mundo, millones de personas viven en la basura y de ella. Con enfermedades inimaginables a causa de los tóxicos del aire y de todo lo que tocan durante TODO el día. Y eso no es noticia, y a pocos les preocupa.

Yo comprendo que no sea lo más divertido de nuestras vidas (y menos en el mundo "americanizado" en el que vivimos donde todo debe ser divertido) pasarnos hablando de esto y mirando estas cosas. No, no lo es. Pero MUCHO más terrible es vivirlas. Y ya han tocado a nuestras puertas, y cada día nos ponen un pié más adentro ... O reflexionamos y nos lo tomamos en serio, o creo que ... el mundo cambiará pronto de un modo inesperado ... inesperado por lo que traerá que no imaginábamos.

Y aunque así no fuera, no deja de ser una más de las lacras que crecen y que no solucionamos simplemente porque les da la gana a quienes les hemos otorgado nuestra confianza y todo el poder para hacer las cosas bien, y no para hacer una cagada tras otra. Y encima nos insultan, o bien de palabra y de un modo descarado, o de hecho tomando decisiones en pos de intereses propios y de amiguetes a costa de lo que sea.

Buenas noches, gentes de bien!

Copyright: Marcello Scotti - All rights reserved

http://www.marcelloscotti.com/


segunda-feira, 28 de maio de 2012

A COSTUREIRA E O CANGACEIRO - (Frances de Pontes Peebles).

"Luzia nunca fazia moldes em morim. A partir das medidas que tirava, riscava direto no tecido e cortava. Aos olhos de Emília, isso também não era coragem - era habilidade. (...) Mas sua habilidade não dependia de exatidão: Luzia era capaz de ver para além dos números. Sabia que estes podem mentir. Tia Sofia tinha lhes ensinado que o corpo humano não tem linhas retas. A fita métrica podia errar no traçado de costas encurvadas, no arco de um ombro, na curva de uma cintura, na dobra de um cotovelo. (...) A costura era uma linguagem, dizia a tia. A linguagem das formas".


"De noitinha, quando escurecia e ficava mais difícil atravessar a caatinga, o bando parava para acampar. (...) O chão era arenoso, mas nada macio. Estendiam cobertores ali mesmo, pois o Falcão não permitia que usassem redes. Dizia sempre que, numa rede, os homens dormem um sono profundo demais. Aquele solo era pedregoso e desconfortável, o que fazia com que todos dormissem com um olho aberto. Luzia usava a sua própria manta. Nas primeiras noites, não conseguiu descansar. Mantinha o canivete junto ao peito, pronta para enfiá-lo em qualquer homem que se aproximasse. Nenhum deles se aproximou. Nos dias que se seguiram, quando os seus pés foram ficando cada vez mais cheios de bolhas e em carne viva, a moça mal podia esperar que anoitecesse para poder descansar. No entanto, quando a noite enfim chegava, ela continuava sem conseguir pegar no sono. Sentia um desespero profundo se apoderar do seu corpo, começando na boca do estômago e invadindo o peito todo. (...) A sua vida e a sua virtude dependiam da clemência daqueles homens e esta era uma ideia que a moça não podia tolerar. Afinal de contas, a clemência era divina. Aqueles homens, não. Eram grosseiros e sujos. Levavam uma vida baseada apenas em instinto e desejo. A clemência estava além de tais impulsos; exigia moderação, deliberação. Até agora, ninguém ali a tinha tocado, mas nada garantia que as coisas fossem continuar assim. Luzia cerrava os dentes, mordendo o cobertor. Podia sentir os homens à escuta ali no escuro, alertas, deitados nas suas camas de areia. Pela manhã, depois de uma noite de sono irregular, alguns cangaceiros lhe davam um sorriso afetado. A maioria, porém, a ignorava. Ninguém comentava seu choro".


Assim é o livro que acabei de ler ontem. Sem querer acabá-lo, pois ele tem visgo, te pega e não larga. Você respira e vive com ele. Fala uma coisa, mas pensa em outra - é ele quem dialoga consigo internamente. Uma história que entra no seu corpo e domina os espaços, corre no sangue, esvazia o pensamento.
Como poucos outros tão bons, fiquei assim - tomada. Os personagens fazem parte da família literária da minha alma. 
A Frances escreve tão bem, como se tivesse abrido uma parte de si mesma para você entrar.
Não quis escrever uma crítica normal aqui. Quis apenas dizer o que senti lendo este livro - como se fosse possível. Só me pergunto o que farei agora sem os personagens - tão vívidos. 
Há várias resenhas na internet. Desculpem-me, simplesmente não consigo dizer mais do que senti. 


domingo, 1 de abril de 2012

A PAIXÃO



Desde que vim morar em Petrópolis tenho me comportado de modo bem incomum com Deus. Comecei, primeiro, a ter uma consciência maior dele (do que ele é), e uma consciência constante de sua presença. Já uso uma medalhinha no pescoço, e vou à missa (duas) no Mosteiro da Virgem, beneditino, de irmãs que cantam lindamente o canto gregoriano aos domingos. A igreja é ampla e simples, com um alto pé direito dando uma acústica excelente às vozes dos anjos.
Frases que antes eu nem prestava atenção, agora ouço com ouvido literário, e anoto no meu caderninho:


"Sou apenas um peregrino sobre a terra." (e penso que, do mesmo modo como nos comportamos bem na casa de nossos amigos, assim devemos respeitar a Terra, pois estamos de visita. Nada é nosso.)
".......de modo que, ajudados pela vossa misericórdia, alcancemos pelo sacrifício de vosso filho, o perdão que não merecemos por nossas obras."


Na missa, eu estava ao lado de uma amiga - e acho que foi ela quem me levou gentilmente a este caminho: ela me deu a Bíblia, que nunca li, e o faço agora com prazer, de vez em quando. Juntas ouvíamos o padre ler o longo Evangelho da crucificação de Jesus (cujas letras, em "Jesus Christ Superstar" faziam com que eu me debulhasse em lágrimas tristes e arrependidas de alguma coisa, à época). 
A missa, desde os meus tempos de escola, era obrigatória, e isso atrapalhava os meus programas todos, aos domingos. Agora ela não me incomoda mais, mesmo se fico muito tempo em pé, como hoje. Houve uma pequena procissão em que entramos na igreja com uma folha de palmeira à mão - uma novidade!
E depois há a conversa com as Irmãs, pessoas alegres e falantes. Há uma senhora de 95 anos que já está lá há 65! E por dias e dias pensei nela, no seu despojamento, na sua inabalável fé, no seu exemplo. Conversamos sobre tudo, e ela até se propôs a rezar para que eu arrumasse um emprego (agora só falta o namorado!) e faz uns deliciosos biscoitos suíços finos como hóstias. 
Há, também, uma pessoa maravilhosa, iluminada, que é quem vende os biscoitos, bolos e pães para ajudar nas despesas do convento. Olhar para ela é uma bênção: uma mulher que teve um câncer e um seio extirpado, e conversa conosco como se não tivesse sido com ela. E nos seus olhos azuis sinto sua fé e ao mesmo tempo a felicidade em sua escolha.
Ela deu-me um livro sobre a fundadora da ordem, Madre Francisca de Jesus - uma mulher linda e rica que lutou 14 anos com a família para tornar-se freira, e sofreu por mais 12 anos de terríveis dores de uma doença incurável. 
Por estes exemplos que me remetem à reflexão, achando-me feliz por tudo o que tenho e por ser quem sou, termino hoje com as mais belas palavras da religião católica:


                         "Eis o mistério da fé."



















quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A FOME DE FORA E A DE DENTRO




Um texto multifacetado, eis a proposta hoje: dúvidas!

Como parei de ver tevê há seis ou sete anos, escolho o que vou ler pela internet e leio reportagens em profundidade pela Piauí. As notícias do dia-a-dia se repetem desde que Noé entrou na Arca. Procuro ver o mundo distanciada, tentando analisá-lo partindo de notícias pinçadas aqui e ali. O Facebook também ajuda, atuando como catalizador de sonhos, pragas, avisos, mensagens de uma forma simplista e vazia, que às vezes “mobiliza” por meio de um curtir, e te conecta com seus amigos virtuais.

Semana passada li uma profícua reportagem do João M. Salles sobre a Islândia, e de como um pequeno país não pagou aos bancos a sua dívida (e sim ao povo islandês) quando viu sua economia ir para o brejo. Mal foi noticiada, pois é o tipo de matéria que abala o sistema e se alastra como pólvora.

Num texto do Frei Betto, li um dado apavorante com dados da FAO: numa Terra com sete bilhões de pessoas, metade vive abaixo da faixa de pobreza, e 852 milhões têm fome crônica. Já sabemos que quem manda no mundo são os banqueiros e o Mercado - senhor absoluto. Parece que está tudo calmo e controlado, mas um dia haverá uma retaliação (ricos x pobres) sem distinção de raças e credos. Precisamos repensar o sistema globalizado, “centrado no consumismo, na especulação, na transformação do mundo em cassino global”. 

Esta é uma questão.

A outra é a fome de dentro.



Depois de ler a literatura e escritores de vários países, analisar seus estilos, estudar o modo de como estruturam suas histórias percebendo as pequenas nuances estilísticas e as grandes, cheguei à conclusão de que agora o único autor que me faz falta é o Proust. Havia meses em que lia de 15 a 20 livros por mês, era um oceano de descobertas, não podia perder tempo. 

Meu guru sempre foi Shakespeare, o que me causa inúmeras epifanias e me dá gosto à leitura. Mas depois vêm o Joyce e o Guimarães Rosa, que experimentam a linguagem de forma racional, mas extremamente rica e criativa. Numa história abarcam todo o conhecimento humano e ainda inventam neologismos – graças à quantidade incrível de línguas que falavam.

Na Piauí 65, uma matéria maravilhosa do Mário Sérgio Conti sobre Proust.

Ele parte de um texto proustiano: A morte de Bergotte, um dos mais conhecidos do escritor, dentro de Em busca do tempo perdido. Narra a visita do escritor Bergotte a uma exposição de arte holandesa em Paris, ao ver o quadro “Vista de Delft”, do Vermeer, episódio que seria comparável à mordida numa madeleine, ativando sem querer a memória do narrador fazendo-o voltar ao passado.

E ali Conti nos mostra um pouco do estilo do autor, através de três estudos de sua imensa bibliografia. (E fala, inclusive, da gravação de 111 cds, com 128 horas de duração, com atores do primeiro time, que leem o original na íntegra.)

No 1° estudo, o autor Jean Milly diz que a frase é o elemento que define o estilo de Proust. “Ele concebeu uma maneira de compor frases para fazer algo necessário e novo: inventar uma forma literária que comportasse a crítica da sociedade à luz do tempo que a corrói. São quatro personagens que servem de alegoria para a criação em pintura, música, teatro e literatura. Seus longos períodos servem para reproduzir o fluxo de pensamentos que altera a realidade ao percorrê-la.” A imagem de uma madeleine molhada no chá e mordida ao acaso, faz com que o autor volte à Combray esquecida, e ali reencontra-se o tempo para sempre perdido.

Conti por aí vai, numa análise perfeita de todos os aspectos que marcaram a obra do escritor. Não os comentarei, não é o meu objetivo. O que me valeu foi perceber, ansiosa, o tempo que estou perdendo por não ler Proust: não há ninguém mais que se lhe compare. Já peguei o primeiro livro muitas vezes: sinto sono. “Ah, mas se você passar da página 100, você não o largará mais!” - ouço o tom de voz animado de minha amiga Nelita, que tem uma de suas cartas enquadradas como um tesouro, na biblioteca.



Falta Proust, a fome de dentro.



Uma me dá vontade de gritar, a outra me silencia. 

Uma é visceral, a outra, igualmente aguda. 



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O PÃO E O SONHO

Os últimos meses do ano passado foram os mais difíceis. Por um lado a família e um amigo pressionando para um trabalho burocrático. Feliz, escrevia meu livro - mas havia a bruta realidade me empurrando para a fábrica de salsichas como em "The wall", do Alan Parker. Vocês se lembram?
Rose, a amiga do ônibus me deu um toque: faça seus biscoitos. E comecei a fazê-los. São biscoitos diferenciados: franceses, ingleses e italianos. 
Eu tinha perdido a prática. No começo saíam tortos, sem gosto, crus, quebradiços. Porém, a essência dos biscoitos eu conhecia: continuei.
E peguei o jeito.
Ontem fui visitar a Rose. Deu-me uma revista, "Padaria 2000". "Vai ser útil a você."
E foi. Descobri o que as padarias viraram: montadoras.  Elas compram a massa congelada ou em pó de pães, biscoitos, bolos, tortas. Além disso, compram outros pós que se dissolvem na água e viram mousses, pudins, doces, salgadinhos, cremes, geleias, cupcakes, sorvetes, etc. Desde os anos 90, as mega-super-hiper indústrias panificadoras entraram no país e transformaram as padarias nas mesmas fábricas de salsicha, só que com pães. Um susto. 
São gostosos? Sim, sem se distinguir mais o simulacro de um pão do que ele era. É como se comêssemos a lembrança por um engano. Que nem os camarões de cativeiro que não são mais camarões.
Mas eu sigo na contramão do império. Não vou comprar massa alguma, nem creme, nem geleia. Vou seguir minhas antigas receitas como as fiz 20 anos atrás. Biscoitinhos de nozes, amêndoas, maracujá, gengibre e mel, canela, anis,  tangerina com cardamomo, cappuccino, castanha. E os de parmezon, pimenta calabresa, allicci, gorgonzola, provolone, curry, fines herbes, and so on. Depois virão os cookies americanos e os integrais - mas vou dar um toque diferente nestes biscoitos feios e sem-graça.
Isso tudo foi para dizer que o meu sonho agora é este. Uma biscoitaria caseira, na minha própria cozinha. Não têm rótulo ainda (minha filha Anginha vai fazer), nem nome. Por enquanto eu os chamo de "Biscoitos da Monique".
E enquanto trabalho a massa na bancada de mármore da pia moldando os biscoitinhos, penso no meu livro - que parei de escrever. 
Mas isso tudo é por ele. 
É tudo por ele.



sábado, 7 de janeiro de 2012

CAMINHANDO E PENSANDO...

As aulas do Aristóteles deveriam ser admiráveis: passeando por jardins e alamedas, enquanto lia e filosofava com seus alunos em vez de ficar confinado a quatro paredes. Quando aprendi isso no Clássico do C. Jacobina em 67, nosso professor João andava distraído também pela sala, falando com seu sotaque nordestino e nos olhando com seus olhos azuis.
Foi nisto que pensei ontem enquanto caminhava pelo Valparaíso - não no Chile, mas em Petrópolis - e em como aulas em contato com a natureza deveriam ser completas, sem a inutilidade de powerpoint e lousa. Petrópolis não é plana como o Rio, mas tem vielas e travessas que levam a lugares surpreendentes perto da natureza exuberante. Sem o calor do Rio, o stress, a violência, e bem mais barata!
Há uma vantagem em morar a 1h do Rio, que é ir e voltar de ônibus. Viajo nas poltronas da frente  e acabo conhecendo mulheres interessantes que viram amigas.
A minha primeira foi a Anna - secretária particular de um intelectual carioca - uma pessoa culta e prestativa, afável na sua conversa, sempre descobrindo contatos e pessoas em comum durante o papo. Demos boas risadas.
Quando se tem uma hora inteira para falar, em vez de dormir, sem querer puxa-se uma conversa e a amizade acontece. Os emails simplificam a vida, mas nos afastam dos amigos com a preguiça. 
Depois foi a Nanda, uma grande musicista de contrabaixo, mulher culta e descolada, que tem uma banda cheia de swing como o do Earth, Wind & Fire, pois eu ouvi, meninos! Ela, como eu, também é fã de uma internet livre, e trocamos figurinhas de músicas e filmes para baixar.
Um outro dia resolvi deixar a bagagem apertada nas minhas pernas. Nisso esbarrei na Rose, assessora de imprensa, produtora cultural e artesã, muito culta e inteligente. Viemos falando do Rio, descemos no Alemão, conversamos por mais duas horas, depois chegamos à minha casa e continuamos o papo por mais uma hora. Altas risadas e concordâncias.
Numa outra viagem foi a vez da Célia, que trabalha na UFF em Niterói. Viemos conversando e quase me esqueço de descer, pois ia a um vidente italiano nos confins da cidade. Aliás, que vidente! Um cara super culto, simpático e fluente no português. De olho azul.
Depois conheci a Denise, que se formou na Alemanha em Gerontologia, e acabou se casando há oito anos com um alemão por quem se apaixonou em Petrô. Ela me indicou um Centro de Línguas pertinho de casa e fiquei encantada com o local cheio de bossa e novidades aqui na terrinha. Denise agora procura emprego (em geriatria) e eu - em qualquer coisa! Ficamos muito amigas.
Outra vez foi com a Renilda que vim falando sem parar sobre escrita, ficção, romances lidos, e acho que ela daria uma boa escritora.

Apenas caminhando, pensando e conversando. 
Quando se é simples, a vida é simples. 


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CÉREBRO APRENDIZ

Viver é incrível, e se eu pudesse definir a vida em uma palavra, ela seria: aventura. É luta? É. Mas nem todo o tempo. Cicatrizes? Sim, mas a gente esquece. Aventura soa infantil, mas como tenho um lado infantil enorme - dizem alguns, com um muxoxo - as dificuldades ficam para trás como obstáculos que já pulei. E eu me sinto feliz! "Os pensamentos positivos são capazes de ligar os centros de prazer do cérebro da mesma maneira que a presença da pessoa amada ou de uma taça de vinho." Caraca, Waldyr! 
"É melhor ser alegre que ser triste!", já dizia o poeta. 
Esta observação vem junto com um troço que li hoje de madrugada sobre a neuroplasticidade, a regeneração neuronal do cérebro, mesmo que a pessoa tenha nascido com metade dele. Pois como exemplo, uma atitude que tenho, desde que fiquei velha (não me falem em 3a. idade, esse eufemismo ridículo!) exercito meu cérebro para que não fique muito caída quando for centenária. Exercito lendo literatura (não jornais, que não servem pra isso), escrevendo e sendo cada vez mais honesta comigo mesma.
Quando li ontem a nova matéria no jornal virtual do Saturnino Braga, o melhor escritor brasileiro vivo, (só perde pro Mestre Guimas) fiquei emocionada, pois ele se expôs: contou uma aventura que teve no aeroporto de arrepiar os cabelos - e foi melhor que tudo o que escreveu sobre política! 
E outro exemplo que me emocionou, foi no post do meu amigo virtual Guilherme de Faria: 
Se estivermos falando de nós mesmos com imensa sinceridade, às raias do patético, poderemos alcançar uma verdadeira poesia. Afinal, quem mais realmente conhecemos, quem mais nos oferece sua face no espelho todos os dias? Que dor maior de viver conhecemos?

"Imensa sinceridade". Isso tem que aparecer na nossa escrita, senão ela será pífia, falsa e o leitor saberá.

"Somos o que pensamos ser". É isso. Cuidar do cérebro, e cuido dele que nem uma criança que não sabe para onde vai. Eu faço a cabeça dele!

E, meus amigos, escrevi esse texto pensando que poderia dar uma força a alguém. Soa idiota, mas no fim do ano a gente fica mais sensível, olha pra trás e pensa no caminho que temos pela frente. E  eu vou percorrê-lo na minha Harley-Davidson, com um namorado doido que nem eu pela vida, puxando o meu trailer cheio de livros! 

Bye! Beijos apaixonados, amorosos, corajosos.

Monique


PS. "Correio Saturnino, artigo n°191/2011".
PS do Ps: Revista Veja, a última, edição 2248, pag. 98.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A CAÇA E O CAÇADOR

Na Piauí deste mês, há uma matéria ("Capela Sistina subterrânea") de um dramaturgo e poeta polonês, Zbigniew Herbert (1924-98), que fala sobre a Caverna de Lascaux, em Montignac. Ele analisa as pinturas pré-históricas de touros, bisões e veados frequentemente abatidos por caçadores, pintados no teto e nas paredes do santuário. Lá pelas tantas, ele se pergunta como associar estas pinturas com a prática brutal dos caçadores. Baseado num livro sobre o rito de caça dos povos siberianos, o autor compara o homem ao animal: os dois caçavam para se alimentar, mas o homem era superior graças às ferramentas que usava. Na força física, o animal era superior pois tinha a audição apurada, maior flexibilidade de movimentos, etc. No campo espiritual, o animal também se sobressaía, pois sua ligação com as forças da natureza e o divino era mais próxima. Ele chega, então, a um trecho que me paralisou:
"A morte do animal depende em parte dele mesmo: para poder ser morto tem de concordar, entrar em acordo com seu assassino. Por isso o caçador vigia cuidadosamente o animal, tem sentimentos por ele. Se a rena não amar o caçador, não aceitará morrer. A magia do bestiário de Lascaux ensina: somente um amor possessivo é capaz de matar."
O animal faz um acordo com seu assassino: a morte depende do próprio animal. Não seria um jogo de palavras bonito?
Mas já vi este olhar do animal prestes a morrer em documentários. 
Eu mesma me vi com este olhar numa cena de violência que me marcou. O medo estanca. Consente. Mesmo sabendo das dores e feridas, depois.


Hoje ia falar da biografia do Jobs, uma aula de tudo, mas não sei se foi pela bela descrição das pinturas da caverna, o certo é que o olhar de redenção de um animal me lembrou de um medo antigo, que associei ao olhar de quem sofre uma violência.

sábado, 26 de novembro de 2011

À FLOR DA PELE


Quando acabou o filme “Melancolia”, ficou olhando a tela do computador por um tempo.
Lembrou-se, depois, da furadeira que o vizinho de baixo fez funcionar o dia todo. Teve que sair de casa para se ver livre do barulho que parecia estar furando seu cérebro. 
Mas a luz do dia a cegava, o brilho da claridade inundava de cores seus olhos, quando apenas precisava do tom esmaecido de um diazinho de chuva, ou então o ruço cobertor que descia das montanhas e a envolvia escondendo o excesso.
No almoço, por distração, colocara muita pimenta baiana na omelete. Foi quase como morrer queimada. A ardência que sentiu: insana.
Parecia que os extremos agudos do mundo entravam nela pelos poros, mexendo por dentro das células, indo até os átomos, estremecendo sua estrutura vulnerável, porque aberta.
A atriz entendia, na sua solidão absoluta, as complexidades do mundo.  Sabia da realidade antes da ocorrência; sentia por antecipação, o que os outros sentiriam em seguida.  Achava impossível qualquer tipo de comunicação. Os diálogos do filme foram essenciais, pois deram forma às imagens, ensinando o caminho das pedras ao espectador – mesmo tendo a parte inicial como um libreto – da mesma forma que o da ópera – revelador.
As palavras, como sempre, pontuam a vida, encaminham-na, fazem a ligação entre o ser e o mundo. Podemos pensar que elas permanecem nos livros quando morremos, pois duram um pouco mais. Apenas um pouco mais. 
Pois quando tudo acaba, o que resta?