Total de visualizações de página

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

CÉREBRO APRENDIZ

Viver é incrível, e se eu pudesse definir a vida em uma palavra, ela seria: aventura. É luta? É. Mas nem todo o tempo. Cicatrizes? Sim, mas a gente esquece. Aventura soa infantil, mas como tenho um lado infantil enorme - dizem alguns, com um muxoxo - as dificuldades ficam para trás como obstáculos que já pulei. E eu me sinto feliz! "Os pensamentos positivos são capazes de ligar os centros de prazer do cérebro da mesma maneira que a presença da pessoa amada ou de uma taça de vinho." Caraca, Waldyr! 
"É melhor ser alegre que ser triste!", já dizia o poeta. 
Esta observação vem junto com um troço que li hoje de madrugada sobre a neuroplasticidade, a regeneração neuronal do cérebro, mesmo que a pessoa tenha nascido com metade dele. Pois como exemplo, uma atitude que tenho, desde que fiquei velha (não me falem em 3a. idade, esse eufemismo ridículo!) exercito meu cérebro para que não fique muito caída quando for centenária. Exercito lendo literatura (não jornais, que não servem pra isso), escrevendo e sendo cada vez mais honesta comigo mesma.
Quando li ontem a nova matéria no jornal virtual do Saturnino Braga, o melhor escritor brasileiro vivo, (só perde pro Mestre Guimas) fiquei emocionada, pois ele se expôs: contou uma aventura que teve no aeroporto de arrepiar os cabelos - e foi melhor que tudo o que escreveu sobre política! 
E outro exemplo que me emocionou, foi no post do meu amigo virtual Guilherme de Faria: 
Se estivermos falando de nós mesmos com imensa sinceridade, às raias do patético, poderemos alcançar uma verdadeira poesia. Afinal, quem mais realmente conhecemos, quem mais nos oferece sua face no espelho todos os dias? Que dor maior de viver conhecemos?

"Imensa sinceridade". Isso tem que aparecer na nossa escrita, senão ela será pífia, falsa e o leitor saberá.

"Somos o que pensamos ser". É isso. Cuidar do cérebro, e cuido dele que nem uma criança que não sabe para onde vai. Eu faço a cabeça dele!

E, meus amigos, escrevi esse texto pensando que poderia dar uma força a alguém. Soa idiota, mas no fim do ano a gente fica mais sensível, olha pra trás e pensa no caminho que temos pela frente. E  eu vou percorrê-lo na minha Harley-Davidson, com um namorado doido que nem eu pela vida, puxando o meu trailer cheio de livros! 

Bye! Beijos apaixonados, amorosos, corajosos.

Monique


PS. "Correio Saturnino, artigo n°191/2011".
PS do Ps: Revista Veja, a última, edição 2248, pag. 98.





segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A CAÇA E O CAÇADOR

Na Piauí deste mês, há uma matéria ("Capela Sistina subterrânea") de um dramaturgo e poeta polonês, Zbigniew Herbert (1924-98), que fala sobre a Caverna de Lascaux, em Montignac. Ele analisa as pinturas pré-históricas de touros, bisões e veados frequentemente abatidos por caçadores, pintados no teto e nas paredes do santuário. Lá pelas tantas, ele se pergunta como associar estas pinturas com a prática brutal dos caçadores. Baseado num livro sobre o rito de caça dos povos siberianos, o autor compara o homem ao animal: os dois caçavam para se alimentar, mas o homem era superior graças às ferramentas que usava. Na força física, o animal era superior pois tinha a audição apurada, maior flexibilidade de movimentos, etc. No campo espiritual, o animal também se sobressaía, pois sua ligação com as forças da natureza e o divino era mais próxima. Ele chega, então, a um trecho que me paralisou:
"A morte do animal depende em parte dele mesmo: para poder ser morto tem de concordar, entrar em acordo com seu assassino. Por isso o caçador vigia cuidadosamente o animal, tem sentimentos por ele. Se a rena não amar o caçador, não aceitará morrer. A magia do bestiário de Lascaux ensina: somente um amor possessivo é capaz de matar."
O animal faz um acordo com seu assassino: a morte depende do próprio animal. Não seria um jogo de palavras bonito?
Mas já vi este olhar do animal prestes a morrer em documentários. 
Eu mesma me vi com este olhar numa cena de violência que me marcou. O medo estanca. Consente. Mesmo sabendo das dores e feridas, depois.


Hoje ia falar da biografia do Jobs, uma aula de tudo, mas não sei se foi pela bela descrição das pinturas da caverna, o certo é que o olhar de redenção de um animal me lembrou de um medo antigo, que associei ao olhar de quem sofre uma violência.

sábado, 26 de novembro de 2011

À FLOR DA PELE


Quando acabou o filme “Melancolia”, ficou olhando a tela do computador por um tempo.
Lembrou-se, depois, da furadeira que o vizinho de baixo fez funcionar o dia todo. Teve que sair de casa para se ver livre do barulho que parecia estar furando seu cérebro. 
Mas a luz do dia a cegava, o brilho da claridade inundava de cores seus olhos, quando apenas precisava do tom esmaecido de um diazinho de chuva, ou então o ruço cobertor que descia das montanhas e a envolvia escondendo o excesso.
No almoço, por distração, colocara muita pimenta baiana na omelete. Foi quase como morrer queimada. A ardência que sentiu: insana.
Parecia que os extremos agudos do mundo entravam nela pelos poros, mexendo por dentro das células, indo até os átomos, estremecendo sua estrutura vulnerável, porque aberta.
A atriz entendia, na sua solidão absoluta, as complexidades do mundo.  Sabia da realidade antes da ocorrência; sentia por antecipação, o que os outros sentiriam em seguida.  Achava impossível qualquer tipo de comunicação. Os diálogos do filme foram essenciais, pois deram forma às imagens, ensinando o caminho das pedras ao espectador – mesmo tendo a parte inicial como um libreto – da mesma forma que o da ópera – revelador.
As palavras, como sempre, pontuam a vida, encaminham-na, fazem a ligação entre o ser e o mundo. Podemos pensar que elas permanecem nos livros quando morremos, pois duram um pouco mais. Apenas um pouco mais. 
Pois quando tudo acaba, o que resta?


terça-feira, 15 de novembro de 2011

A FEIA PERIGOSA

Cleópatra não se parecia em absoluto com Elizabeth Taylor, a mera protagonista do filme. Tinha o nariz adunco, e Pascal disse que se ele fosse menor, a face do mundo teria sido diferente. 
Quando apareceu, aos 21 anos, na frente de César - viera escondida dentro de um saco, e atravessado num barquinho a muralha do palácio  - não estava "majestosamente vestida". Mesmo assim, causou um assombro.
Melhor que a aparência, foi sua educação.
Nasceu em 69 a.C., no palácio de Alexandria, no Egito. Mas era grega macedônia, de uma família - os Ptolomeu - que geravam faraós há dez gerações. Alexandria era o maior centro intelectual e de excelência ao seu tempo: ela foi preparada para a soberania. Sua educação foi principalmente literária, com os melhores professores à época.
Em pequena, cantou o alfabeto grego ao estudá-lo. Suas lições estavam longe de ser fáceis: aprender era uma tarefa séria. O calendário, por não ter sábados e domingos, favorecia o estudo, praticado todos os dias, com duas folgas ao mês em honra a Apolo. 
A Ilíada e a Odisseia correspondiam à Bíblia, e ela sabia passagens de cor. Lia em voz alta, ou ouvia de seus mestres. Um rolo de papiro possuía o tamanho de 20 folhas A4, difícil de ser manuseado. O texto, sem pontuação e parágrafos. As frases vinham unidas, sem pausas, o que dificultava a leitura.
Depois de Homero, estudou uma infinidade de outros: Menandro, Esopo, Heródoto, Tucídides, Eurípedes, Ésquilo, Sófocles, Hesíodo, Píndaro, Safo, etc. Aprendeu aritmética, geometria, música, astrologia, astronomia. A Biblioteca e o Museu de Alexandria, fundados por sua família e frequentados por ela, situavam-se no palácio.
Estudou filosofia a fundo. E retórica, para falar bem em público, pois "sua cultura voltou-se ao discurso, à persuasão e à refutação". (Schiff) Seu pensamento foi burilado a fim de ser organizado com precisão. Deveria expressá-lo "artisticamente, numa pronúncia elegante". (Schiff)
Em pose ereta, aprendeu a respiração para as pausas e os gestos, subindo ou baixando a voz num discurso - desenvolvido através de uma quantidade imensa de assuntos difíceis. Sua mente era afiada; seu humor, vigoroso. Teve um estudo contínuo de memorização, com exercícios diversificados, o que lhe deu muita experiência e uma constante percepção estratégica.
Sua cultura era oral. Declamava e falava com voz agradável e melodiosa. 
Foi uma presença marcante.
Comunicava-se em nove idiomas, "passando com facilidade de uma língua à outra, sem necessidade de intérprete". (Plutarco)
"Como sempre, uma mulher educada era uma mulher perigosa." (Schiff)


Sua biografia me encanta, pois:
- mais do que sua riqueza - ela foi a pessoa mais rica de seu tempo,
- mais do que a beleza, que supostamente não tinha,
- mais do que o encanto e a sedução usados com César e Marco Antonio,
foi sua educação e cultura que a fizeram a mulher mais famosa e influente do mundo, até hoje.


Schiff, Stacy - "Cleópatra, uma biografia." Rio de Janeiro: Zahar, 2011. Um livro excelente.

sábado, 5 de novembro de 2011

ALGO DE NOVO ME ACONTECIA

A primeira vez que li Shakespeare foi num livro de minha mãe que ficava na mesinha de centro, em frente ao sofá, na sala. Imagino que ela o tenha deixado ali porque eram os sonetos de amor do bardo, um livro de cultura, por excelência. Mas ele era encadernado de couro vermelho, o que “combinava” com o entorno. O importante para ela, eu supunha, é que estava perto de mãos, no caso, as minhas, de doze anos.
Eu já tinha pegado no livro umas 30 vezes, mas nunca como naquele momento, lembro como se fosse hoje. Sua leitura foi fundamental. Na página em questão, tive a primeira sensação de maravilhamento. Por certo eu já a sentira antes, em algum filme ou música. Mas não como naquela vez. Algo de novo me acontecia, como uma febre momentânea, falta de ar e dor no peito, coração acelerado.
Como apenas palavras haveriam de me causar tamanho susto? Era mais que um susto: um assombro. Shakespeare foi o primeiro de uma série imensa de autores por quem me apaixonei, por quem sofri. Lendo-os havia um elo muito forte entre eles e eu, e era como se vivesse mais dentro dos livros do que fora. Nas histórias eu lá estava, vivia como os personagens, fossem eles de Dickens, de E. Veríssimo, ou de José de Alencar.


SONETO 53

De que substância és feita,
Que milhões de estranhas sombras te envolvem?
Como todos têm, cada um, a sua sombra,
E tu, sozinha, podes emprestar a elas.
Descreve Adônis, cuja imitação
É parcamente feita à tua imagem;
E sobre o rosto de Helena toda arte da beleza se define,
E tu, em mosaicos gregos, de novo és pintada;
Fala da primavera, e do frescor do ano;
Aquela que exibe a sombra de tua formosura,
E o outro, como teu coração se assemelha,
E tu, em toda forma abençoada e conhecida.
Tomas parte de toda graça visível,
Mas, nem tu, nem ninguém mantém fiel o coração.


Eram apenas palavras, mas foram elas que me mostraram um patamar mais alto na escrita. Com Shakespeare, não havia comparação. Os outros autores que lera no colégio ficavam a milhas de distância deste, pareciam estar na pré-literatura.  Como alguém poderia dizer – “de que substância és feita?” 
E assim, antes mesmo de pensar numa faculdade, numa profissão, meu destino já estava selado.



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

UMA APFELSTRÜDEL INESQUECÍVEL

Hoje não vou falar de livros, e sim de uma boa lembrança que tive. Tudo está relacionado neste mundo, havendo uma grande ligação invisível pairando no ar.
Dentro deste pensamento, ontem procurei pela internet um restaurante austríaco que conheço em Campos do Jordão: o Jardim do Embaixador. Tenho vontade de voltar lá, mas ele não existe mais. Descobri isto no site do Edmundo Ferreira da Rocha, num post em que ele lamentava a apropriação indevida da apfelstrüdel, por outras pessoas da cidade. D. Ilse Kolleritz Wolff era a dona deste restaurante sofisticado que foi famoso por três décadas, até fechar em 1970. E foi ela a introduzir a torta de maçã austríaca na cidade. 


Deixo aqui seu blog para quem quiser dar uma olhada:
http://www.camposdojordaocultura.com.br

Edmundo descreve como a torta é feita, e quando a massa folhada é aberta, precisa de um espaço de 1.00x.80 cm - pois "a massa tem que ficar com uma espessura tão fina e elástica que a trone quase totalmente translúcida, possibilitando a leitura de um texto de jornal que seja colocado por baixo dela."
Achei tocante a descrição, e me lembrei da sensação que tive a primeira vez em que a provei.
Eu tinha 18 anos, e estava com um amigo de 15. Dividíamos a mesma torta, comendo-a aos pedacinhos, nos deliciando com o mesmo garfo, bem devagar. Naquele tempo não tinha ideia do que fazíamos, mas foi como uma comunhão em que dividíamos a mesma hóstia. A apfelstrüdel ficou na minha memória como um grande prazer erótico e gustativo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

UMA VEZ, UM LIVRO

Em cada fase da minha vida houve, há e haverá um livro ou vários a interagir comigo. O certo é que todos a marcaram em um momento. Escrever sobre eles é como contar sobre a minha vida também, sem eles eu viveria como se flutuasse no vazio - não perdida, mas sem substância.
Comecei, também, a escrever meu livro na semana passada, já tem mais ou menos umas 80 páginas. O processo de escrever é longo, há dez anos eu o comecei. Mas escrever, escrevo desde os 12 anos, e aos 14 comecei com os diários.
Tenho escrito de madrugada, acordo sempre à mesma hora e já pego um caderno e uma caneta que estão à minha espera. Escrevo o que tenho que escrever, como se tudo estivesse pronto em minha cabeça. Não adianta eu me forçar a dormir: não durmo. Tenho que obedecer ao chamado. E não fico cansada. Simplesmente é a hora em que tem que ser. 
O fato é que de madrugada não me distraio tanto com o computador, a música, a geladeira ou o céu visto da janela. Sou eu e os pensamentos que vêm de dentro. Eles não me pedem licença, é a hora em que querem sair: eu apenas obedeço.
Há dias em que estou mais engraçada, solta, e a escrita vem mais leve, eu escrevo rindo. Há outros, contudo, submersos e eu os rumino mais profundamente.
Um livro que me ajudou nesta fase foi "O efeito da sombra", do Deepak Chopra, que não tem nada a ver com literatura. Mas com ele passei a fazer as pazes com o meu lado de sombra, escondido desde criança. Abri as janelas e portas trancadas e deixei o sol entrar. E desde então, começaram a acontecer estas coisas: trabalho, livro, blog. Isto é bom, como uma sincronicidade.
Com a morte do Jobs, quando li "faça o que você gosta de fazer, mesmo que todos sejam contra" - aceitei o fato e comecei o livro. Na hora certa.
Passei por mais de 30 cursos e oficinas de literatura e afins. Li avidamente, escrevi avidamente, tentei vários estilos, ouvi conselhos e críticas, segui tendências, métodos. Parei. Fiquei dois anos sem escrever, fui ao fundo do poço, mas voltei. 
Escolhi esta grande Terra como tema para o blog, a nossa casa. 
Sejam todos bem-vindos!