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sábado, 5 de novembro de 2011

ALGO DE NOVO ME ACONTECIA

A primeira vez que li Shakespeare foi num livro de minha mãe que ficava na mesinha de centro, em frente ao sofá, na sala. Imagino que ela o tenha deixado ali porque eram os sonetos de amor do bardo, um livro de cultura, por excelência. Mas ele era encadernado de couro vermelho, o que “combinava” com o entorno. O importante para ela, eu supunha, é que estava perto de mãos, no caso, as minhas, de doze anos.
Eu já tinha pegado no livro umas 30 vezes, mas nunca como naquele momento, lembro como se fosse hoje. Sua leitura foi fundamental. Na página em questão, tive a primeira sensação de maravilhamento. Por certo eu já a sentira antes, em algum filme ou música. Mas não como naquela vez. Algo de novo me acontecia, como uma febre momentânea, falta de ar e dor no peito, coração acelerado.
Como apenas palavras haveriam de me causar tamanho susto? Era mais que um susto: um assombro. Shakespeare foi o primeiro de uma série imensa de autores por quem me apaixonei, por quem sofri. Lendo-os havia um elo muito forte entre eles e eu, e era como se vivesse mais dentro dos livros do que fora. Nas histórias eu lá estava, vivia como os personagens, fossem eles de Dickens, de E. Veríssimo, ou de José de Alencar.


SONETO 53

De que substância és feita,
Que milhões de estranhas sombras te envolvem?
Como todos têm, cada um, a sua sombra,
E tu, sozinha, podes emprestar a elas.
Descreve Adônis, cuja imitação
É parcamente feita à tua imagem;
E sobre o rosto de Helena toda arte da beleza se define,
E tu, em mosaicos gregos, de novo és pintada;
Fala da primavera, e do frescor do ano;
Aquela que exibe a sombra de tua formosura,
E o outro, como teu coração se assemelha,
E tu, em toda forma abençoada e conhecida.
Tomas parte de toda graça visível,
Mas, nem tu, nem ninguém mantém fiel o coração.


Eram apenas palavras, mas foram elas que me mostraram um patamar mais alto na escrita. Com Shakespeare, não havia comparação. Os outros autores que lera no colégio ficavam a milhas de distância deste, pareciam estar na pré-literatura.  Como alguém poderia dizer – “de que substância és feita?” 
E assim, antes mesmo de pensar numa faculdade, numa profissão, meu destino já estava selado.



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

UMA APFELSTRÜDEL INESQUECÍVEL

Hoje não vou falar de livros, e sim de uma boa lembrança que tive. Tudo está relacionado neste mundo, havendo uma grande ligação invisível pairando no ar.
Dentro deste pensamento, ontem procurei pela internet um restaurante austríaco que conheço em Campos do Jordão: o Jardim do Embaixador. Tenho vontade de voltar lá, mas ele não existe mais. Descobri isto no site do Edmundo Ferreira da Rocha, num post em que ele lamentava a apropriação indevida da apfelstrüdel, por outras pessoas da cidade. D. Ilse Kolleritz Wolff era a dona deste restaurante sofisticado que foi famoso por três décadas, até fechar em 1970. E foi ela a introduzir a torta de maçã austríaca na cidade. 


Deixo aqui seu blog para quem quiser dar uma olhada:
http://www.camposdojordaocultura.com.br

Edmundo descreve como a torta é feita, e quando a massa folhada é aberta, precisa de um espaço de 1.00x.80 cm - pois "a massa tem que ficar com uma espessura tão fina e elástica que a trone quase totalmente translúcida, possibilitando a leitura de um texto de jornal que seja colocado por baixo dela."
Achei tocante a descrição, e me lembrei da sensação que tive a primeira vez em que a provei.
Eu tinha 18 anos, e estava com um amigo de 15. Dividíamos a mesma torta, comendo-a aos pedacinhos, nos deliciando com o mesmo garfo, bem devagar. Naquele tempo não tinha ideia do que fazíamos, mas foi como uma comunhão em que dividíamos a mesma hóstia. A apfelstrüdel ficou na minha memória como um grande prazer erótico e gustativo.