Total de visualizações de página

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A FEIA PERIGOSA

Cleópatra não se parecia em absoluto com Elizabeth Taylor, a mera protagonista do filme. Tinha o nariz adunco, e Pascal disse que se ele fosse menor, a face do mundo teria sido diferente. 
Quando apareceu, aos 21 anos, na frente de César - viera escondida dentro de um saco, e atravessado num barquinho a muralha do palácio  - não estava "majestosamente vestida". Mesmo assim, causou um assombro.
Melhor que a aparência, foi sua educação.
Nasceu em 69 a.C., no palácio de Alexandria, no Egito. Mas era grega macedônia, de uma família - os Ptolomeu - que geravam faraós há dez gerações. Alexandria era o maior centro intelectual e de excelência ao seu tempo: ela foi preparada para a soberania. Sua educação foi principalmente literária, com os melhores professores à época.
Em pequena, cantou o alfabeto grego ao estudá-lo. Suas lições estavam longe de ser fáceis: aprender era uma tarefa séria. O calendário, por não ter sábados e domingos, favorecia o estudo, praticado todos os dias, com duas folgas ao mês em honra a Apolo. 
A Ilíada e a Odisseia correspondiam à Bíblia, e ela sabia passagens de cor. Lia em voz alta, ou ouvia de seus mestres. Um rolo de papiro possuía o tamanho de 20 folhas A4, difícil de ser manuseado. O texto, sem pontuação e parágrafos. As frases vinham unidas, sem pausas, o que dificultava a leitura.
Depois de Homero, estudou uma infinidade de outros: Menandro, Esopo, Heródoto, Tucídides, Eurípedes, Ésquilo, Sófocles, Hesíodo, Píndaro, Safo, etc. Aprendeu aritmética, geometria, música, astrologia, astronomia. A Biblioteca e o Museu de Alexandria, fundados por sua família e frequentados por ela, situavam-se no palácio.
Estudou filosofia a fundo. E retórica, para falar bem em público, pois "sua cultura voltou-se ao discurso, à persuasão e à refutação". (Schiff) Seu pensamento foi burilado a fim de ser organizado com precisão. Deveria expressá-lo "artisticamente, numa pronúncia elegante". (Schiff)
Em pose ereta, aprendeu a respiração para as pausas e os gestos, subindo ou baixando a voz num discurso - desenvolvido através de uma quantidade imensa de assuntos difíceis. Sua mente era afiada; seu humor, vigoroso. Teve um estudo contínuo de memorização, com exercícios diversificados, o que lhe deu muita experiência e uma constante percepção estratégica.
Sua cultura era oral. Declamava e falava com voz agradável e melodiosa. 
Foi uma presença marcante.
Comunicava-se em nove idiomas, "passando com facilidade de uma língua à outra, sem necessidade de intérprete". (Plutarco)
"Como sempre, uma mulher educada era uma mulher perigosa." (Schiff)


Sua biografia me encanta, pois:
- mais do que sua riqueza - ela foi a pessoa mais rica de seu tempo,
- mais do que a beleza, que supostamente não tinha,
- mais do que o encanto e a sedução usados com César e Marco Antonio,
foi sua educação e cultura que a fizeram a mulher mais famosa e influente do mundo, até hoje.


Schiff, Stacy - "Cleópatra, uma biografia." Rio de Janeiro: Zahar, 2011. Um livro excelente.