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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A CAÇA E O CAÇADOR

Na Piauí deste mês, há uma matéria ("Capela Sistina subterrânea") de um dramaturgo e poeta polonês, Zbigniew Herbert (1924-98), que fala sobre a Caverna de Lascaux, em Montignac. Ele analisa as pinturas pré-históricas de touros, bisões e veados frequentemente abatidos por caçadores, pintados no teto e nas paredes do santuário. Lá pelas tantas, ele se pergunta como associar estas pinturas com a prática brutal dos caçadores. Baseado num livro sobre o rito de caça dos povos siberianos, o autor compara o homem ao animal: os dois caçavam para se alimentar, mas o homem era superior graças às ferramentas que usava. Na força física, o animal era superior pois tinha a audição apurada, maior flexibilidade de movimentos, etc. No campo espiritual, o animal também se sobressaía, pois sua ligação com as forças da natureza e o divino era mais próxima. Ele chega, então, a um trecho que me paralisou:
"A morte do animal depende em parte dele mesmo: para poder ser morto tem de concordar, entrar em acordo com seu assassino. Por isso o caçador vigia cuidadosamente o animal, tem sentimentos por ele. Se a rena não amar o caçador, não aceitará morrer. A magia do bestiário de Lascaux ensina: somente um amor possessivo é capaz de matar."
O animal faz um acordo com seu assassino: a morte depende do próprio animal. Não seria um jogo de palavras bonito?
Mas já vi este olhar do animal prestes a morrer em documentários. 
Eu mesma me vi com este olhar numa cena de violência que me marcou. O medo estanca. Consente. Mesmo sabendo das dores e feridas, depois.


Hoje ia falar da biografia do Jobs, uma aula de tudo, mas não sei se foi pela bela descrição das pinturas da caverna, o certo é que o olhar de redenção de um animal me lembrou de um medo antigo, que associei ao olhar de quem sofre uma violência.