Total de visualizações de página

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O PÃO E O SONHO

Os últimos meses do ano passado foram os mais difíceis. Por um lado a família e um amigo pressionando para um trabalho burocrático. Feliz, escrevia meu livro - mas havia a bruta realidade me empurrando para a fábrica de salsichas como em "The wall", do Alan Parker. Vocês se lembram?
Rose, a amiga do ônibus me deu um toque: faça seus biscoitos. E comecei a fazê-los. São biscoitos diferenciados: franceses, ingleses e italianos. 
Eu tinha perdido a prática. No começo saíam tortos, sem gosto, crus, quebradiços. Porém, a essência dos biscoitos eu conhecia: continuei.
E peguei o jeito.
Ontem fui visitar a Rose. Deu-me uma revista, "Padaria 2000". "Vai ser útil a você."
E foi. Descobri o que as padarias viraram: montadoras.  Elas compram a massa congelada ou em pó de pães, biscoitos, bolos, tortas. Além disso, compram outros pós que se dissolvem na água e viram mousses, pudins, doces, salgadinhos, cremes, geleias, cupcakes, sorvetes, etc. Desde os anos 90, as mega-super-hiper indústrias panificadoras entraram no país e transformaram as padarias nas mesmas fábricas de salsicha, só que com pães. Um susto. 
São gostosos? Sim, sem se distinguir mais o simulacro de um pão do que ele era. É como se comêssemos a lembrança por um engano. Que nem os camarões de cativeiro que não são mais camarões.
Mas eu sigo na contramão do império. Não vou comprar massa alguma, nem creme, nem geleia. Vou seguir minhas antigas receitas como as fiz 20 anos atrás. Biscoitinhos de nozes, amêndoas, maracujá, gengibre e mel, canela, anis,  tangerina com cardamomo, cappuccino, castanha. E os de parmezon, pimenta calabresa, allicci, gorgonzola, provolone, curry, fines herbes, and so on. Depois virão os cookies americanos e os integrais - mas vou dar um toque diferente nestes biscoitos feios e sem-graça.
Isso tudo foi para dizer que o meu sonho agora é este. Uma biscoitaria caseira, na minha própria cozinha. Não têm rótulo ainda (minha filha Anginha vai fazer), nem nome. Por enquanto eu os chamo de "Biscoitos da Monique".
E enquanto trabalho a massa na bancada de mármore da pia moldando os biscoitinhos, penso no meu livro - que parei de escrever. 
Mas isso tudo é por ele. 
É tudo por ele.



8 comentários:

  1. Oh Moniquita, o que dizer? você fazendo biscoitos, eu escrevendo histórias de outras pessoas. Pena que eu não posso dizer que é por ele. Mas gosto da ideia de trocar um sonho por outro. Temporariamente. A realização do segundo com a intenção de realizar o primeiro.
    Um beijo minha linda. e até breve.

    ResponderExcluir
  2. Oi, minha Linda! Que prazer me dá ler o que escreve. Gostaria muito que você tivesse um blog, te deixaria mais perto da escrita.
    Poisé, trocamos os sonhos, mas o principal fica lá, escondido, mas pronto para aparecer quando chamado.
    Venha aqui, desta vez eu te espero!
    Um beijo carinhoso,
    Monique

    ResponderExcluir
  3. Parabéns querida pela criatividade!!! Acho que vc esta no caminho certo...cozinha pacas e tem super bom gosto!!! Eu quero provar!! Faça e qdo vier ao Rio quero comprar de vc! ! Amo PISTACHE com castanhas!!! Hehehe...bjsssss.....DRIKA

    ResponderExcluir
  4. Curiosa pra provar das suas artes: biscoitos e livros da Monique... Aqui no blog, experimento os tira-gostos. Hummm... Lembro grandes escritoras igualmente feras na cozinha.
    Sinto cheiro de doce e de livro no ar, cheiro bom!
    Torcendo e aguardando. :)

    ResponderExcluir
  5. Menina, me lembrei do velho Leopoldo. Era padeiro e fazia o melhor pão do bairro, rsssss... Coisa de fã :))) O problema é que era honesto demais da conta e achava que, ainda que fosse o mestre da padaria, não podia exigir melhor salário. Então, sei bem o que é um pão gostoso e de qualidade. Sei muito bem! :)))) Fico meio que identificada com sua verve padeirense :) Absolutamente, não tenho nenhuma identificação com o "fazer", mas com o degustar o pão :)))). Também quero provar (comprar :) quando vier ao Rio, ok?) Ah, o velho era meu pai. Deve estar se explicando lá do outro lado, entre outras coisas, pela não valorização de sua dedicação e capacidade, enquanto entre nós. Esta era a cobrança da minha mãe, rsssssss...
    Monique, querida, valorize sua feitura do pão artezanal. Isso é pra quem pode, rssssss...
    Lere. (nostueu@globo.com)

    Abstração minha: Fico pensando que na Roma antiga era chique se fartar de comer até por tudo pra fora, pra ter espaço e colocar mais coisa pra dentro de novo. Hoje isso é coisa tão rude que nem os rudes de hoje fazem isso :))))

    Aproveitemos então o momento delicioso do pão artesanal, com todas aquelas iguarias chiquerésimas, da Monique. Chegando aqui não esqueça de me contatar, quero também me deliciar , rsssss..

    ResponderExcluir
  6. Oi, querida! Seu comentário é sempre uma delícia de leitura. Adorei a história do seu pai, que adivinhei por sua admiração. Acho que biscoitos nós não fazemos para nós mesmos, o pão também fica nesta categoria altruísta.
    Vou ao Rio na semana que vem, fazer uma degustação dos biscoitos com a família e alguns amigos, na casa da minha filha. Desta vez vai ficar complicado, mas da outra vez, vou me contactar com você, combinado?
    Obrigada pelo comentário, é sempre um prazer lê-la.
    Um beijo,
    Monique

    ResponderExcluir
  7. Drika querida, vamos nos ver esta semana e colocar nossos assuntos em dia, ok? Vamos também pensar no nosso curso secreto, acho que vai acontecer!
    Um beijo, minha Linda, obrigada pelo comentário.
    Monique

    ResponderExcluir
  8. Mary, querida!Acabei mandando o meu comentário pelo email. Mas assim que estiver no Rio menos ocupada, te ligo para nos vermos. Estou impressionada como tu escreves bem.
    Um beijo,
    Monique

    ResponderExcluir