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segunda-feira, 28 de maio de 2012

A COSTUREIRA E O CANGACEIRO - (Frances de Pontes Peebles).

"Luzia nunca fazia moldes em morim. A partir das medidas que tirava, riscava direto no tecido e cortava. Aos olhos de Emília, isso também não era coragem - era habilidade. (...) Mas sua habilidade não dependia de exatidão: Luzia era capaz de ver para além dos números. Sabia que estes podem mentir. Tia Sofia tinha lhes ensinado que o corpo humano não tem linhas retas. A fita métrica podia errar no traçado de costas encurvadas, no arco de um ombro, na curva de uma cintura, na dobra de um cotovelo. (...) A costura era uma linguagem, dizia a tia. A linguagem das formas".


"De noitinha, quando escurecia e ficava mais difícil atravessar a caatinga, o bando parava para acampar. (...) O chão era arenoso, mas nada macio. Estendiam cobertores ali mesmo, pois o Falcão não permitia que usassem redes. Dizia sempre que, numa rede, os homens dormem um sono profundo demais. Aquele solo era pedregoso e desconfortável, o que fazia com que todos dormissem com um olho aberto. Luzia usava a sua própria manta. Nas primeiras noites, não conseguiu descansar. Mantinha o canivete junto ao peito, pronta para enfiá-lo em qualquer homem que se aproximasse. Nenhum deles se aproximou. Nos dias que se seguiram, quando os seus pés foram ficando cada vez mais cheios de bolhas e em carne viva, a moça mal podia esperar que anoitecesse para poder descansar. No entanto, quando a noite enfim chegava, ela continuava sem conseguir pegar no sono. Sentia um desespero profundo se apoderar do seu corpo, começando na boca do estômago e invadindo o peito todo. (...) A sua vida e a sua virtude dependiam da clemência daqueles homens e esta era uma ideia que a moça não podia tolerar. Afinal de contas, a clemência era divina. Aqueles homens, não. Eram grosseiros e sujos. Levavam uma vida baseada apenas em instinto e desejo. A clemência estava além de tais impulsos; exigia moderação, deliberação. Até agora, ninguém ali a tinha tocado, mas nada garantia que as coisas fossem continuar assim. Luzia cerrava os dentes, mordendo o cobertor. Podia sentir os homens à escuta ali no escuro, alertas, deitados nas suas camas de areia. Pela manhã, depois de uma noite de sono irregular, alguns cangaceiros lhe davam um sorriso afetado. A maioria, porém, a ignorava. Ninguém comentava seu choro".


Assim é o livro que acabei de ler ontem. Sem querer acabá-lo, pois ele tem visgo, te pega e não larga. Você respira e vive com ele. Fala uma coisa, mas pensa em outra - é ele quem dialoga consigo internamente. Uma história que entra no seu corpo e domina os espaços, corre no sangue, esvazia o pensamento.
Como poucos outros tão bons, fiquei assim - tomada. Os personagens fazem parte da família literária da minha alma. 
A Frances escreve tão bem, como se tivesse abrido uma parte de si mesma para você entrar.
Não quis escrever uma crítica normal aqui. Quis apenas dizer o que senti lendo este livro - como se fosse possível. Só me pergunto o que farei agora sem os personagens - tão vívidos. 
Há várias resenhas na internet. Desculpem-me, simplesmente não consigo dizer mais do que senti. 


2 comentários:

  1. Ai, Monique! Só posso dizer que é bom demais quando a gente se envolve no enredo do livro. O que é envolvente para uns, pode ser besteirol para outros. O importante é quando a gente participa do "uns", rs. Dá pra sentir que realmente vc tá dentro da história, observando os sentimentos da moça. Bem legal isso. Eu até cheguei a visualizar os caras, rss... Uma coisa medonha, rs. Agora, fiquei me perguntando o que tem a ver as formas das roupas, dos moldes com os cangaceiros, hahaha. Claro, só lendo o livro. Ok. Boa leitura!
    Lere.

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  2. Oi, Lerê. Sim, só lendo este grande livro você saberá, e não lhe direi para que você o leia. Quando o livro causa epifanias, é como se você pairasse sobre a realidade, pois algo maior causou aquele encantamento.
    Obrigada pelo retorno, sempre um prazer.
    Monique

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