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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A FOME DE FORA E A DE DENTRO




Um texto multifacetado, eis a proposta hoje: dúvidas!

Como parei de ver tevê há seis ou sete anos, escolho o que vou ler pela internet e leio reportagens em profundidade pela Piauí. As notícias do dia-a-dia se repetem desde que Noé entrou na Arca. Procuro ver o mundo distanciada, tentando analisá-lo partindo de notícias pinçadas aqui e ali. O Facebook também ajuda, atuando como catalizador de sonhos, pragas, avisos, mensagens de uma forma simplista e vazia, que às vezes “mobiliza” por meio de um curtir, e te conecta com seus amigos virtuais.

Semana passada li uma profícua reportagem do João M. Salles sobre a Islândia, e de como um pequeno país não pagou aos bancos a sua dívida (e sim ao povo islandês) quando viu sua economia ir para o brejo. Mal foi noticiada, pois é o tipo de matéria que abala o sistema e se alastra como pólvora.

Num texto do Frei Betto, li um dado apavorante com dados da FAO: numa Terra com sete bilhões de pessoas, metade vive abaixo da faixa de pobreza, e 852 milhões têm fome crônica. Já sabemos que quem manda no mundo são os banqueiros e o Mercado - senhor absoluto. Parece que está tudo calmo e controlado, mas um dia haverá uma retaliação (ricos x pobres) sem distinção de raças e credos. Precisamos repensar o sistema globalizado, “centrado no consumismo, na especulação, na transformação do mundo em cassino global”. 

Esta é uma questão.

A outra é a fome de dentro.



Depois de ler a literatura e escritores de vários países, analisar seus estilos, estudar o modo de como estruturam suas histórias percebendo as pequenas nuances estilísticas e as grandes, cheguei à conclusão de que agora o único autor que me faz falta é o Proust. Havia meses em que lia de 15 a 20 livros por mês, era um oceano de descobertas, não podia perder tempo. 

Meu guru sempre foi Shakespeare, o que me causa inúmeras epifanias e me dá gosto à leitura. Mas depois vêm o Joyce e o Guimarães Rosa, que experimentam a linguagem de forma racional, mas extremamente rica e criativa. Numa história abarcam todo o conhecimento humano e ainda inventam neologismos – graças à quantidade incrível de línguas que falavam.

Na Piauí 65, uma matéria maravilhosa do Mário Sérgio Conti sobre Proust.

Ele parte de um texto proustiano: A morte de Bergotte, um dos mais conhecidos do escritor, dentro de Em busca do tempo perdido. Narra a visita do escritor Bergotte a uma exposição de arte holandesa em Paris, ao ver o quadro “Vista de Delft”, do Vermeer, episódio que seria comparável à mordida numa madeleine, ativando sem querer a memória do narrador fazendo-o voltar ao passado.

E ali Conti nos mostra um pouco do estilo do autor, através de três estudos de sua imensa bibliografia. (E fala, inclusive, da gravação de 111 cds, com 128 horas de duração, com atores do primeiro time, que leem o original na íntegra.)

No 1° estudo, o autor Jean Milly diz que a frase é o elemento que define o estilo de Proust. “Ele concebeu uma maneira de compor frases para fazer algo necessário e novo: inventar uma forma literária que comportasse a crítica da sociedade à luz do tempo que a corrói. São quatro personagens que servem de alegoria para a criação em pintura, música, teatro e literatura. Seus longos períodos servem para reproduzir o fluxo de pensamentos que altera a realidade ao percorrê-la.” A imagem de uma madeleine molhada no chá e mordida ao acaso, faz com que o autor volte à Combray esquecida, e ali reencontra-se o tempo para sempre perdido.

Conti por aí vai, numa análise perfeita de todos os aspectos que marcaram a obra do escritor. Não os comentarei, não é o meu objetivo. O que me valeu foi perceber, ansiosa, o tempo que estou perdendo por não ler Proust: não há ninguém mais que se lhe compare. Já peguei o primeiro livro muitas vezes: sinto sono. “Ah, mas se você passar da página 100, você não o largará mais!” - ouço o tom de voz animado de minha amiga Nelita, que tem uma de suas cartas enquadradas como um tesouro, na biblioteca.



Falta Proust, a fome de dentro.



Uma me dá vontade de gritar, a outra me silencia. 

Uma é visceral, a outra, igualmente aguda.