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domingo, 1 de abril de 2012

A PAIXÃO



Desde que vim morar em Petrópolis tenho me comportado de modo bem incomum com Deus. Comecei, primeiro, a ter uma consciência maior dele (do que ele é), e uma consciência constante de sua presença. Já uso uma medalhinha no pescoço, e vou à missa (duas) no Mosteiro da Virgem, beneditino, de irmãs que cantam lindamente o canto gregoriano aos domingos. A igreja é ampla e simples, com um alto pé direito dando uma acústica excelente às vozes dos anjos.
Frases que antes eu nem prestava atenção, agora ouço com ouvido literário, e anoto no meu caderninho:


"Sou apenas um peregrino sobre a terra." (e penso que, do mesmo modo como nos comportamos bem na casa de nossos amigos, assim devemos respeitar a Terra, pois estamos de visita. Nada é nosso.)
".......de modo que, ajudados pela vossa misericórdia, alcancemos pelo sacrifício de vosso filho, o perdão que não merecemos por nossas obras."


Na missa, eu estava ao lado de uma amiga - e acho que foi ela quem me levou gentilmente a este caminho: ela me deu a Bíblia, que nunca li, e o faço agora com prazer, de vez em quando. Juntas ouvíamos o padre ler o longo Evangelho da crucificação de Jesus (cujas letras, em "Jesus Christ Superstar" faziam com que eu me debulhasse em lágrimas tristes e arrependidas de alguma coisa, à época). 
A missa, desde os meus tempos de escola, era obrigatória, e isso atrapalhava os meus programas todos, aos domingos. Agora ela não me incomoda mais, mesmo se fico muito tempo em pé, como hoje. Houve uma pequena procissão em que entramos na igreja com uma folha de palmeira à mão - uma novidade!
E depois há a conversa com as Irmãs, pessoas alegres e falantes. Há uma senhora de 95 anos que já está lá há 65! E por dias e dias pensei nela, no seu despojamento, na sua inabalável fé, no seu exemplo. Conversamos sobre tudo, e ela até se propôs a rezar para que eu arrumasse um emprego (agora só falta o namorado!) e faz uns deliciosos biscoitos suíços finos como hóstias. 
Há, também, uma pessoa maravilhosa, iluminada, que é quem vende os biscoitos, bolos e pães para ajudar nas despesas do convento. Olhar para ela é uma bênção: uma mulher que teve um câncer e um seio extirpado, e conversa conosco como se não tivesse sido com ela. E nos seus olhos azuis sinto sua fé e ao mesmo tempo a felicidade em sua escolha.
Ela deu-me um livro sobre a fundadora da ordem, Madre Francisca de Jesus - uma mulher linda e rica que lutou 14 anos com a família para tornar-se freira, e sofreu por mais 12 anos de terríveis dores de uma doença incurável. 
Por estes exemplos que me remetem à reflexão, achando-me feliz por tudo o que tenho e por ser quem sou, termino hoje com as mais belas palavras da religião católica:


                         "Eis o mistério da fé."