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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A PERCEPÇÃO DA VERDADE


A fome. A estratégia que dá certo, mais do que qualquer tortura. Foi assim também com os nazistas, que aniquilaram a identidade dos judeus nos campos de concentração. As pessoas ficavam concentradas, tinham um destino comum, pois ali era o centro da fome. Os torturados comiam uma metade de pão velho e duro por dia, parecia feito com serragem, dado pelos torturadores, e dividiam-no para comer aos poucos. O centro dos pensamentos de cada judeu era a fome. Muitos se suicidaram. A tortura de não ter o que comer virava obsessão, e havia uma tênue esperança de que no dia seguinte poderiam comer alguma coisa, e assim aguentavam mais um dia, e outro.

Foi isso o que li na Piauí de setembro, parte de um diário de guerra de Liwia Jaffe, que agora, aos 85 anos, com a ajuda da filha, Noemi Jaffe, vai publicar sua história: O que os cegos estão sonhando?, em outubro. É emocionante e real, não como o monte de livros e filmes de ação e violência que aparecem a rodo por aí, e quando acabam, são imediatamente esquecidos. A história de terror que ela vive é tão pungente e humana que pensamos: isso não pode acontecer nunca mais, nunca mais. Mas a imagem que logo me chega é a da fome na África.
Os judeus no passado, os africanos no presente.
Em condições sub-humanas, milhões de africanos partem em êxodos pelo deserto, morrem como formigas, fugindo do fundamentalismo, das guerras, do terrorismo, da perseguição política, étnica ou religiosa.

Quando se descobre, pensando, uma verdade com a qual se depara, é como se tudo ao redor parasse no tempo e no espaço. Tem-se a percepção de uma realidade, é um instante de compreensão absoluta em que nem as palavras são necessárias: o estado mental é de uma precisão impactante.
A percepção de alguma coisa faz com que algo por dentro mude, como se as células de agora em diante fossem se comportar de maneira diferente. A percepção é física, não só mental: o corpo todo fica alerta, por instantes.
Sentir fome é diferente de viver com fome. Não se precisa passar fome para se saber como é. Por isso, uma história bem contada ou um livro bem escrito fazem com que se tenha a percepção de um momento. As palavras podem levar as pessoas a várias experiências, mas só quando existe uma verdade absoluta na história o leitor é abençoado com uma percepção da verdade. Ela o muda.